segunda-feira, 6 de julho de 2009

Estampas

A garota do vestido estampado sentava sempre no primeiro banco pertinho do motorista. Gostava de espelhos e sentava na frente para ficar se olhando no retrovisor. O motorista já era seu amigo. Trocavam olhares pelo retrovisor e conversavam boa parte do caminho. A garota do vestido estampado usava uma estampa diferente para cada ocasião. Em dias mais quentes, estampas de cores vibrantes, em dias frios, estampas miúdas, geralmente de flores. Estes eram meus favoritos. Seus cabelos longos e volumosos marcavam ainda mais aquelas estamparias. Nunca a via com outro tipo de roupa. Várias mulheres curculavam naquele ônibus, mas ela era a única que sempre usava vestidos, curtos, longos, médios, mas sempre estampados.Tinha inveja daquele motorista. Queria poder ser visto por ela. Descia do ônibus antes do meu ponto e eu a acompanhava pela janela até que sumisse do alcance de meus olhos. Era assim de segunda a sexta. Houve um tempo em que passei a sentir sua falta nos fins de semana. No domingo à noite já contava os segundos para poder vê-la no dia seguinte. Não sei explicar ao certo que tipo de sentimento me movia, mas comecei a desconfiar de que era paixão, mas uma paixão insegura, frágil, estranha. Assim que eu entrava no ônibus meus olhos se voltavam em sua direção e não se desviavam mais. Não sei que tipo de magia emanava daquela garota do vestido estampado. Chegava a sonhar com seus vestidos. O banco em que ela sentava geralmente era ocupado por algum velhinho. Era incrível como aquele lugar sempre estava ocupado, mas na primeira oportunidade que o encontrei vazio, sentei ao seu lado. Não trocamos uma palavra, sequer um olhar. Fiquei estático observando sua conversa com o motorista. Parecia uma estátua. Tinha medo de encostar nela e em seu vestido estampado. Quando chegou o seu ponto, desceu e eu continuei inerte, nem consegui acompanhá-la pela janela.

Alguns dias se passaram até que eu conseguisse mais uma vez sentar-me ao lado dela, mas essa vez foi decisiva. O motorista estava de férias e era outro que nos conduzia. Como ela não o conhecia, tive oportunidade de puxar conversa. Minha boca parecia ter o dobro de dentes quando lhe perguntei as horas. Os lábios estavam tão secos que tive a sensação de que partiriam. Não tive ideia mais criativa para iniciar uma conversa. Ela, pela primeira vez, olhou para mim. Nunca tinha reparado bem em seus olhos, eram grandes e expressivos e pareciam acumular todas as cores de seus vestidos. Respondeu furtivamente e virou-se para o lado. Então, recorri à segunda estratégia furada de puxar assunto e comentei sobre o tempo e o trânsito, que por sinal estava o caos de sempre. Ela apenas esboçou um sorriso e nada comentou. Minhas estratégias de aproximação já haviam esgotado, até que observei que carregava em seu colo um livro de Agatha Christie. Perfeito. Eu tinha toda a obra da rainha do crime. Comentei sobre o livro e perguntei se já tinha lido outros. Ela, um pouco incomodada com a pergunta invasiva, respondeu que era o primeiro que lia. Não sei se queria cortar o assunto ou se falava a verdade, mas acabou me dando motivos para prolongar a conversa. Como não foi muito receptiva, resolvi me calar. Quando desceu, a observei ao longe como de costume sumir no caminho.

Foi assim que conheci meu marido, em um ônibus que pegava todos os dias para o trabalho. Usava sempre vestidos e com muitas estampas. Tinha feito promessa para Santo Antônio. Sentou do meu lado um dia, conversou umas bobagens. Perguntou sobre um livro que estava lendo e daí não parou mais. Os lábios tremiam quando falou comigo pela primeira vez. Achei bonitinho, mas não dei muita conversa. Mais umas viagens juntos, algumas resenhas sobre os livros de Agatha Christie e o namoro começou. Casei com um vestido estampado para não contrariar o santo.

(Imagem: Flickr)

3 comentários:

Herculano Neto disse...

A literatura agradece, Saudações.

Jaquelyne A. Costa disse...

Andréia!

Que mágico esse conto!
Adorei estar aqui!

Um grande beijo=*

Andréia M. G. disse...

Obrigada e muito bem-vindos!