sábado, 7 de novembro de 2009

Momento dadaísta

O clima ficou pesado entre nós, a brincadeira deles exigia uma platéia e não estávamos a fim de participar. A outra viagem que não cessa? Na varanda, lá fora, há dezenas de espanta-espíritos em cerâmica. O passado é como o mar: nunca sossega. Na vocação pela vida está incluído o amor, inútil disfarçar, amamos a vida. Entro no sol, atravesso seu coração vermelho-cálido e acordo num campo de ouro que pode ser também o mar. Assim que abri a porta de casa, saiu ao meu encontro a sensação física de que eu não estava sozinho. Óbvio. Silêncio. História. Vida. Noturnas. Sobreviver. Intermitências.


(Fragmentos de livros de Agualusa, Lygia Telles, Saramago e Beatriz Brecher, não necessariamente nesta ordem, escolhidos ao léu)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Mulheres

Mulheres já foram mudas, mas quando conseguiram tirar a mordaça da boca e o cinto de castidade das pernas, vestiram calças e foram à luta. Depois disso, os homens parecem mais fracos, mais lentos, menos espertos, enquanto as mulheres avançam com uma força inabalável. A teoria do sexo frágil caiu por terra ou mudou de lado. O movimento feminista ganhou a causa. Hoje, mulheres são arrimo de família. Mas a intenção, suponho, era que os homens acompanhassem o ritmo. Na velha frase que diz Atrás de um grande homem existe sempre uma grande mulher, o “atrás” já perdeu terreno faz tempo e em seu lugar foi colocado “ao lado”. Talvez a intenção divina ao criar o homem e a mulher tenha sido essa, de seguirem lado a lado. A sociedade mudou o desígnio. Há religiões, pautadas em escritos bíblicos, que afirmam a supremacia do homem perante a mulher, que deve se manter obediente ao seu marido. Corta essa! Faz-me rir. Não acredito que Deus pense assim.

Mil desculpas aos homens, mas fiquem espertos porque as mulheres estão com tudo e não estão prosa. E muitas andam a circular não mais atrás nem ao lado, mas à frente, reinando absolutas. Penso que seria melhor uma certa equidade. Tomar a frente de tudo às vezes cansa.

(Imagem: Google)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Entre gritos e sorrisos


Com quem ama, grita.
Ao algoz, sorriso.
Resultado: culpa.
Solidão: castigo.


(Imagem: Google)

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Ninhos

De repente, começou a vislumbrar a possibilidade de sair do ninho. Desconhece as artimanhas do destino. Tem medo. Não é fácil abandonar a zona de conforto. Sentimentos múltiplos. Mas deseja seguir. Há muito sabe que é preciso não só sair da casca, mas também sair do ninho. Fora, tudo é incerto, mas atraente. É preciso seguir, ouve no canto de um pássaro. Porque a vida é efêmera e o ninho deve ficar vazio para que sejam construídos outros ninhos.

(Imagem: Google)

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Porque hoje é dia do professor

Porque hoje é dia do professor e isso me toca diretamente. Professora for formação que fugiu da profissão. Rima feia, mas não importa. Sinto uma certa culpa por não ter honrado a missão. Abandonei a tarefa assumida pela estabilidade financeira, em busca da realização de planos que o dinheiro pode comprar. Vendida ao "sistema". Carrego essa culpa. Não lecionei por muito tempo, mas guardo boas lembranças dos meus alunos. Apesar de experiências altamente angustiantes, posso dizer que a maioria foi gratificante. Outra rima feia, mas realmente pouco importa. Sinto falta de meus alunos. Até os mais endiabrados me tratavam com carinho, guardadas algumas exceções. Uma turma que tive me chamava de psicóloga. Coversava muito com eles. Eram adolescentes e alguns me contavam segredos. Também diziam que eu era apaixonada (e não estavam errados), porque precisavámos estudar Camões e selecionei alguns poemas de amor. Uma forma mais fácil de fazer Camões chegar até eles. Que saudade! Eles gostavam que eu contasse as histórias dos livros, que infelizmente poucos liam (não eram alunos tão exemplares), mas gostavam de ouvir as histórias. Na sala de aula me sentia útil. Tinha a oportunidade de ajudar pessoas a pensar, a entender as coisas, a refletir sobre a vida, a desenvolver a criticidade. Hoje, no meu momento financeiro estável, a alma sempre anda inquieta. No meu atual ambiente de trabalho convivo com um sistema hierárquico, com jogos de poderes e vaidades que não combinam comigo. Gosto de autonomia e na sala de aula eu tinha. Espero que consiga resolver essa questão em algum momento. Tudo é possível. Pró, prozinha ou simplesmente professora. É o que sou. Porque isso me toca diretamente.

domingo, 11 de outubro de 2009

Em busca do melhor ângulo

Tenho formação católica, estudei em colégio de padres. Doces anos sob os princípios pregados pelas escolas salesianas. Guardo muitas lembranças boas dos meus tempos de escola. Passo em frente ao colégio e me emociono. Hoje, em um de seus muros está escrito "Uma vez Salesiano, sempre Salesiano". É verdade. É uma grande família. Eu cresci lá. Sinto saudades. Costumava brincar que existiam passagens secretas e segredos misteriosos que os padres escondiam. Acho que li Aghata Christie demais e tomei gosto pela espionagem. Lembro que um dos livros que mais gostei de ler na escola se chama "O gênio do crime". Não sei quem é o autor.

Então, católica por formação. Não muito praticante nos últimos tempos, talvez por ter consciência dos males que a igreja católica já praticou, talvez por não concordar com alguns de seus dogmas, talvez por saber que religiões funcionam como forma de exercer controle sobre as pessoas. Mas não consegui até hoje encontrar refúgio espiritual em outra religião. Às vezes digo que sou ecumênica, creio um pouco em cada coisa. Mas não é bem verdade. Há religiões nas quais definitivamente não creio.

Na igreja católica existem alguns sacramentos. O primeiro deles é o batismo. O que abre as portas para os demais. O necessário para que a pessoa se incorpore a Cristo e ao catolicismo. O batismo sempre teve um significado importante para mim. Não tanto pelos motivos citados, mas pela madrinha maravilhosa que minha mãe escolheu para mim. Melhor escolha não poderia ser feita. Minha madrinha soube e sabe exercer de forma irretocável sua função. Infelizmente, não posso dizer o mesmo sobre o padrinho e o mais curioso é que ele mesmo se ofereceu para a missão, mas... da mesma forma que se ofereceu para me apadrinhar, também decidiu se "desobrigar" da tarefa.

Hoje, tive o prazer de batizar o filho de minha madrinha. Criança abençoada. Luz de nossas vidas. Para isso, tive que fazer um "curso" de batismo, no qual achava que receberia aconselhamentos sobre a importância e significado de ser madrinha de alguém. Houve isso no curso, sim, houve, mas o que mais foi enfatizado a todo momento foram as coisas que deveríamos responder ao padre na hora do batismo. "Respondam direito para o padre não reclamar com a gente depois".

Dia do batizado. Igreja confusa. Batizado coletivo. Sete crianças. Pais, padrinhos e convidados agitados. Chuva abundante. Durante a celebração, mal ouvia o que o padre dizia. A preocupação maior era em tirar fotos pelo melhor ângulo. Vamos ver quem aparece mais. As respostas que deveríamos dar ao padre eram ditas por ele mesmo. "Quando eu perguntar, respondam isso, respondam aquilo". Mesmo assim, poucos respondiam, estavam muito ocupados a procura do melhor ângulo, como já disse. A beata da paróquia, assustada, respondia às perguntas do padre em voz alta para tentar salvar a celebração. Na hora de molhar a cabeça das crianças, uma confusão generalizada. Uns querendo passar na frente dos outros, sempre em busca do melhor ângulo, afinal aquele momento não poderia escapar aos flashes. Alguns ali sequer devem frequentar a igreja. Os filhos e afilhados talvez só retornem para realização de casamento, por pura tradição, ou moda, ou sabe-se Deus o quê. No curso que fiz antes do batizado, perguntou-se a uma mãe que estava presente o motivo pelo qual desejava batizar o filho. Sua resposta: "Não sei. Todo mundo batiza, também quero batizar o meu". Todos em busca do melhor ângulo.

Seja como for, nem eu mesma sei se boto fé nesse ritual católico. Deus sabe o amor que tenho pelo meu afilhado e o acompanhamento que petendo dar a ele por toda a vida. Esse é meu compromisso. O meu melhor ângulo não poderia ser registrado, pois não estava visível aos olhos, estava pulsando de felicidade e vontade de honrar minha missão.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Bordado

desvelo sem fim
os novelos de mim

anunciando o novo dia
como quem termina uma lida

cortando os fios do absurdo
como quem bebe absinto

gritando rouca ao sem-fim dos mundos
como quem gira no carrossel dos loucos

desvelo sem ter
o bordado a tecer

apenas riscando
opções de viver

(Rosy Feros)

Porque é tempo de desvelar-se.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Oi, tudo bem?

Interessante algumas relações que estabelecemos com o outro. Oi, tudo bem? E daí não passa. Há variações, por exemplo, Bom dia! Ou um cumprimento gestual, como um balançar afirmativo de cabeças ou um sorriso, às vezes amarelo, fugidio, outras vezes mais harmônico, mais aberto, depende do estado de espírito. Podemos encontrar infinitas vezes esse mesmo outro que daí não passa. Não se sabe o porquê, mas daí não passa. Faço muito isso. Recebo muito isso. Queria ir mais além. Relações rasas me irritam.

domingo, 27 de setembro de 2009

História de meninas

Ela tinha apenas 13 anos e muitas ideias na cabeça. Gostava de Fanta Uva, de videogame e de conversar com as amigas. Ele tinha 22 anos, jovem em início de carreira, não muito promissora, dirigia a combe que servia de condução escolar para algumas crianças e adolescentes do bairro. A menina de 13 anos era mais desenvolvida do que as outras garotas de sua idade. Na aula de educação sexual na 4ª série tornou-se o assunto dos corredores depois de revelar que já tinha menstruado aos 9 anos. Uma moça relativamente precoce. Alisava os cabelos com amônia, pintava as unhas de vermelho forte, sempre andava de batom, usava sutiã e tinha seios para preenchê-los. Se assim era aos 9, imaginem aos 13. Parecia uma pequena mulher. Para o rapaz de 22, a idade dela não fazia a menor diferença. E assim, começaram o namoro. Bem, o rapaz tinha 22 anos, então, o namoro deles era um pouco mais avançado do que os namoros de garotas e rapazes da idade dela. Havia sexo. Muito sexo. E... por imaturidade dela e precipitação dele, ou sabe-se Deus o quê... A mocinha ficou grávida. Isso foi no verão. Talvez o calor tenha colaborado.

Sua melhor amiga sabia apenas que ela estava namorando um rapaz mais velho, mas sequer sonhava que o namoro já tinha tomado rumos mais profundos. Quando engravidou, a menina de 13 anos não contou nada a sua amiga. Na verdade, não contou nada a ninguém. Mas sua mãe descobriu. As mães sempre descobrem. Para os moldes da época e daquela família, só havia uma solução: o casamento. Então, a menina de 13 anos agora era uma mulher e não só isso, também estava prestes a se tornar uma mãe de família. Assim foi. Depois das férias de verão, a menina não retornou à escola. Sua melhor amiga tinha poucas notícias dela. Na verdade, andava magoada porque há muito tempo a amiga não ligava mais. No retorno das férias, uma colega, vizinha da menina de 13 anos, perguntou a sua melhor amiga, que já não era tão melhor assim, se ela tinha ido ao casamento e se sabia para quando era o bebê. A antiga melhor amiga ficou chateada. Apesar da amizade entre aquelas meninas não ser mais a mesma de outrora, gostava dela e não iria permitir que denegrissem sua imagem. No ginásio, era muito comum criarem fofocas, mas já estavam indo longe demais.

Naquele mesmo dia, ligou para a ex-melhor amiga e falou sobre o que havia ocorrido na escola. Para sua surpresa, a menina de 13 anos, agora mulher, mãe e dona de casa, revelou sua maternidade e casamento precoces. A outra menina também de 13 anos foi tomada por um sentimento de ter sido traída pela amiga, mas apesar da pouca idade, entendia um pouco o sentimento dela. Tinha vergonha. A mulher de 13 anos abandonou a escola na 7ª série. As amigas se falaram bastante tempo por telefone, mas nunca mais se encontraram. Nas conversas, a mulher de 13 anos fazia queixas do marido.

Muitos anos depois, as meninas, já mulheres as duas, se encontraram em um shopping. Quase não se reconheceram. A antiga mulher de 13 anos estava acompanhada de uma bela moça de 15. A jovem era sua filha. 15 anos já haviam se passado. A outra antiga menina de 13 anos ainda não tinha filhos. A antiga mulher de 13 anos não teve mais nenhum. Tinha se separado há pouco tempo do marido, queria voltar a estudar e recuperar a juventude perdida. O marido? Depois de várias traições com outras meninas que levava no transporte escolar, acabou saindo de casa para assumir a gravidez de uma delas. Coincidência ou não, também tinha 13 anos. Mais nova do que a filha que teve com a menina-mulher desta história.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Diferenças

Mesmas profissões, diferentes corações. Uma é cercada por muitos e conhece todos pelo nome. Outra é cercada por poucos e não sabe o nome de nenhum. Uma fria, gelada. Outra calorosa, solidária. Uma quer ser simpática, mas não consegue. Ri sozinha. Outra respira simpatia. Ri com coro. Uma nem quer ouvir seu problema. Insensível. Outra não só ouve como aconselha. Humana. Com uma joio e trigo se misturam. A outra sabe bem a distinção.