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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Mais uma mulher no espelho

Olhar para trás conforta a alma. A vaidade ainda existe, mas não é tão fácil encarar o espelho. A pele viçosa só nos retratos que carrega e exibe para mostrar que um dia foi jovem. Espelhos só engordam, só distorcem, só mancham, só maltratam. Necessidade de ser a outra, aquela que tinha o corpo esbelto e arrancava suspiros do sexo oposto. As filhas, que já são duas mulheres, têm o viço da juventude que ela tanto inveja. É uma inveja estranha, não queria sentir, parece cruel, mas sente, estranhamente sente. O armário pode estar repleto de roupas, mas não servem, já não caem bem em nenhuma circunstância. Em suas filhas, tudo encaixa. Os suspiros agora são delas. Precisa ouvir elogios, mas só quem ouve são elas. Sim, querida, esse vestido ficou perfeito, será a formanda mais linda da festa. Na filha, tudo cai bem, mas nela... O que vou vestir? Na formatura vou encontrar com toda a família, amigos, colegas. Deus, como queria ter ficado guardada no passado. Não é a roupa que não serve, minha amiga. São as pesadas marcas do tempo, esse “ser” inexorável.

(Imagem: Google)

domingo, 6 de dezembro de 2009

A uma rainha

Coração em frangalhos e cenas repetidas. Fortaleza em abalo. Desafinos. Dureza no olhar. Flores ressecadas pelo tempo. Diálogos esparsos. Palavras vãs. Retratos distorcidos. Sorrisos convertidos em lágrimas. Dor ferina. Vaso partido com cacos colados. Muitas fissuras. Amor recolhido. Seu nome é Regina. Rainhas precisam de reis.

sábado, 7 de novembro de 2009

Momento dadaísta

O clima ficou pesado entre nós, a brincadeira deles exigia uma platéia e não estávamos a fim de participar. A outra viagem que não cessa? Na varanda, lá fora, há dezenas de espanta-espíritos em cerâmica. O passado é como o mar: nunca sossega. Na vocação pela vida está incluído o amor, inútil disfarçar, amamos a vida. Entro no sol, atravesso seu coração vermelho-cálido e acordo num campo de ouro que pode ser também o mar. Assim que abri a porta de casa, saiu ao meu encontro a sensação física de que eu não estava sozinho. Óbvio. Silêncio. História. Vida. Noturnas. Sobreviver. Intermitências.


(Fragmentos de livros de Agualusa, Lygia Telles, Saramago e Beatriz Brecher, não necessariamente nesta ordem, escolhidos ao léu)

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Ninhos

De repente, começou a vislumbrar a possibilidade de sair do ninho. Desconhece as artimanhas do destino. Tem medo. Não é fácil abandonar a zona de conforto. Sentimentos múltiplos. Mas deseja seguir. Há muito sabe que é preciso não só sair da casca, mas também sair do ninho. Fora, tudo é incerto, mas atraente. É preciso seguir, ouve no canto de um pássaro. Porque a vida é efêmera e o ninho deve ficar vazio para que sejam construídos outros ninhos.

(Imagem: Google)

domingo, 27 de setembro de 2009

História de meninas

Ela tinha apenas 13 anos e muitas ideias na cabeça. Gostava de Fanta Uva, de videogame e de conversar com as amigas. Ele tinha 22 anos, jovem em início de carreira, não muito promissora, dirigia a combe que servia de condução escolar para algumas crianças e adolescentes do bairro. A menina de 13 anos era mais desenvolvida do que as outras garotas de sua idade. Na aula de educação sexual na 4ª série tornou-se o assunto dos corredores depois de revelar que já tinha menstruado aos 9 anos. Uma moça relativamente precoce. Alisava os cabelos com amônia, pintava as unhas de vermelho forte, sempre andava de batom, usava sutiã e tinha seios para preenchê-los. Se assim era aos 9, imaginem aos 13. Parecia uma pequena mulher. Para o rapaz de 22, a idade dela não fazia a menor diferença. E assim, começaram o namoro. Bem, o rapaz tinha 22 anos, então, o namoro deles era um pouco mais avançado do que os namoros de garotas e rapazes da idade dela. Havia sexo. Muito sexo. E... por imaturidade dela e precipitação dele, ou sabe-se Deus o quê... A mocinha ficou grávida. Isso foi no verão. Talvez o calor tenha colaborado.

Sua melhor amiga sabia apenas que ela estava namorando um rapaz mais velho, mas sequer sonhava que o namoro já tinha tomado rumos mais profundos. Quando engravidou, a menina de 13 anos não contou nada a sua amiga. Na verdade, não contou nada a ninguém. Mas sua mãe descobriu. As mães sempre descobrem. Para os moldes da época e daquela família, só havia uma solução: o casamento. Então, a menina de 13 anos agora era uma mulher e não só isso, também estava prestes a se tornar uma mãe de família. Assim foi. Depois das férias de verão, a menina não retornou à escola. Sua melhor amiga tinha poucas notícias dela. Na verdade, andava magoada porque há muito tempo a amiga não ligava mais. No retorno das férias, uma colega, vizinha da menina de 13 anos, perguntou a sua melhor amiga, que já não era tão melhor assim, se ela tinha ido ao casamento e se sabia para quando era o bebê. A antiga melhor amiga ficou chateada. Apesar da amizade entre aquelas meninas não ser mais a mesma de outrora, gostava dela e não iria permitir que denegrissem sua imagem. No ginásio, era muito comum criarem fofocas, mas já estavam indo longe demais.

Naquele mesmo dia, ligou para a ex-melhor amiga e falou sobre o que havia ocorrido na escola. Para sua surpresa, a menina de 13 anos, agora mulher, mãe e dona de casa, revelou sua maternidade e casamento precoces. A outra menina também de 13 anos foi tomada por um sentimento de ter sido traída pela amiga, mas apesar da pouca idade, entendia um pouco o sentimento dela. Tinha vergonha. A mulher de 13 anos abandonou a escola na 7ª série. As amigas se falaram bastante tempo por telefone, mas nunca mais se encontraram. Nas conversas, a mulher de 13 anos fazia queixas do marido.

Muitos anos depois, as meninas, já mulheres as duas, se encontraram em um shopping. Quase não se reconheceram. A antiga mulher de 13 anos estava acompanhada de uma bela moça de 15. A jovem era sua filha. 15 anos já haviam se passado. A outra antiga menina de 13 anos ainda não tinha filhos. A antiga mulher de 13 anos não teve mais nenhum. Tinha se separado há pouco tempo do marido, queria voltar a estudar e recuperar a juventude perdida. O marido? Depois de várias traições com outras meninas que levava no transporte escolar, acabou saindo de casa para assumir a gravidez de uma delas. Coincidência ou não, também tinha 13 anos. Mais nova do que a filha que teve com a menina-mulher desta história.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Diferenças

Mesmas profissões, diferentes corações. Uma é cercada por muitos e conhece todos pelo nome. Outra é cercada por poucos e não sabe o nome de nenhum. Uma fria, gelada. Outra calorosa, solidária. Uma quer ser simpática, mas não consegue. Ri sozinha. Outra respira simpatia. Ri com coro. Uma nem quer ouvir seu problema. Insensível. Outra não só ouve como aconselha. Humana. Com uma joio e trigo se misturam. A outra sabe bem a distinção.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Redemoinho

Um redemoinho passou por aqui. O vento voraz e furioso avançou contra tudo. Remexeu minha vida e deixou um monte de destroços. E agora? Onde estão minhas coisas preciosas? Não consigo encontrar mais nada. Ficou tudo revirado. O vento desmanchou meus cabelos, levantou corpos, arrastou roupas e dissipou-se. Eu que tinha tudo em seus lugares. Eu que tinha a ordem no comando. Agora restou bagunça, desordem, confusão. Se tivesse sido ontem, já estaria pondo tudo em seu lugar, mas hoje, já nem sei mais qual é o meu lugar no mundo, imagine o lugar das coisas. Deixe estar. As coisas se acham. Parece que o redemoinho também passou em mim.

P. S. : Lembrem-se de que ficção tem um pouco de confissão, da mesma forma o contrário.

(Imagem: Google)

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A menina de asas

A menina nasceu com asas, mas ninguém a ensinou a voar. À noite, sonhava com vôos longínquos. Percorria todas as partes do mundo com as asas bem abertas. Começou a observar as aves e assim aprendeu a voar. No começo, batia as asas timidamente e fazia vôos rasteirinhos, quase não saia do chão. Gostava de subir em árvores. Quando estava triste, era lá que se escondia. À medida que crescia, também crescia sua vontade de conquistar o céu. Mas tinha medo de se perder e não encontrar mais o caminho de casa. Gostava de dias de chuva, daquelas que deixam depois um arco-íris. Seu maior sonho era atravessar aquelas cores. Queria ver se existia um pote de ouro no final, como leu em um livro. A menina lia muitas histórias. Tinha vontade de fazer parte delas. Gostava muito da história do Peter Pan. Queria ser a Sininho e bater suas asinhas livre por todos os lados. Quando já não era mais tão menina, resolveram aparar suas asas para que ela não subisse mais em árvores. Não era adequado para uma mocinha, diziam. Não gostava que cortassem suas asas e começou a ficar rebelde. Num dia de casamento da chuva com o sol, abriu a janela e viu de longe um arco-íris. Sem pensar muito, alçou um vôo bem alto, entrou pelas nuvens, misturou-se às cores difusas daquele arco e de lá não voltou mais. Deve ter encontrado o pote de ouro.

(Imagem: Google)

domingo, 16 de agosto de 2009

Vermelho

Os sapatos vermelhos na vitrine eram alvo de seu desejo. Eram de um vermelho brilhante e sedutor. Mas não bastava a beleza, era preciso o conforto. Havia um desfile de cores na vitrine. Outro vermelho lhe chamou a atenção. Uma bolsa que combinaria bem com aqueles sapatos, mas não valia o preço que custava. De que valeria pagar caro por uma bolsa que não valia tanto e calçar sapatos que lhe matariam os pés? Mas a atração pelo vermelho era mais forte do que o bom senso. Entrou na loja e experimentou os sapatos. Como já previa, não eram nada confortáveis, andando alguns metros ganharia alguns dolorosos calos. Pediu para ver a bolsa. Constatou o material frágil, que rasgaria em pouco tempo. Mas ambos, sapatos e bolsa, tinham um vermelho encantador que lhe enchia os olhos. O vendedor esperava ansioso e tentava convencê-la da compra. Mas ela resistiu. Até pensou naquele homem e no tempo que lhe havia tomado, porém seguiu os conselhos de seu avô: Cada um sabe onde lhe aperta o sapato.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

De repente, estranhos

Conhecem-se, enlaçam-se, amam-se. O tempo passa, a paixão aflora. O tempo passa, a paixão decresce. O amor muda ou murcha, desvai-se. Os dias sempre compartilhados já não têm mais a presença daquele com quem por tanto tempo se dividiu a vida. A pessoa com quem se dormia e acordava todos os dias passa a ser aquela de quem se quer manter distância. A família também se afasta porque é uma parte daquele outro que agora incomoda. Tudo é distância. Estranhamento. Encontram-se na rua e trocam sorrisos mornos, fugidios. Estabelecem diálogos vazios, frios. Ensaiam uma intimidade forçada, falsa, mas percebem que passaram do extremamente profundo à superfície. Trocam telefones, mas sabem que a ligação nunca se realizará, nem por um, nem por outro. De repente, estranhos.

domingo, 26 de julho de 2009

Chuva com chocolate


Chuva grossa e coração latente. Para ele, não havia obstáculos que o impedissem de estar por alguns momentos com ela naquela noite. Sentados à mesa, com as roupas molhadas, bebiam chocolate quente e comiam um pedaço de torta coberta de ameixas. Várias vozes soavam no lugar onde havia pessoas agasalhadas que também tiveram coragem de enfrentar a chuva. Não sabia os motivos que as levaram até ali, mas para ele o motivo eram aqueles belos olhos grandes e negros que estavam à sua frente. Sentia um frio cortante debaixo do casaco fino que vestia. Ouvia o uivo do vento, forte e intenso, mas não tanto como o tumulto que estava sua alma. Conversaram muito naquela noite e fizeram um brinde com suas xícaras de chocolate. Perdido nos olhos dela, ele estava completamente encantado. As gotas de chuva pareciam pedaços de chocolate.

(Imagem: Google)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Onde estão os pombos?

Perto da casa de um velhinho, havia uma praça frequentada por vários pombos. Uma revoada de pombos todos os dias. As crianças brincavam com eles. Havia mais pombos do que crianças. O velhinho sentava na praça, comprava pipoca e jogava aos pombinhos, que se aglomeravam para disputar o lanche.

Com o tempo, a praça ficou moderna, com fonte luminosa, pistas de corrida e recreação. Um complexo de bares e restaurantes foi construído na área antes ocupada pelos pombos. Alguns deles ainda resistem e disputam com os carros um lugarzinho perto da fonte. As crianças ainda lhes fazem cortesia, mas a presença deles tem diminuído bastante. O que se vê agora são suas carcaças. Vários são atropelados por dia. As pessoas passam por suas carcaças, que esturricam ao sol até serem levadas pelo vento. Algumas nem reparam que há um pombo morto no chão.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Flor aberta

Vivaz. Presença marcante por onde se apresenta. Desembaraço pleno. Simpatia absoluta. Exageradamente alegre. Sua energia irradia o ambiente. Senta-se em frente à tela, mas logo se levanta. Baila entre os papéis. Posa para fotos. Gosta de movimento. Conversa com todos e quando não há ninguém, conversa consigo mesmo. Sorriso fácil, leve, escancarado. Seu olhar brilha. O branco alimenta sua paz.

Flor murcha

Grávida. Envolta entre os papéis naquela mesa torta. À sua frente a tela que sempre a acompanha. Telefone, fax, e-mail. O bebê cresce em seu ventre, mas ela nem percebe. Incômodo pelo peso que carrega. A sala cheia, com vozes e risos alegres. Movimento constante e ela virando páginas de livros. Dedos nervosos no teclado. O tempo é curto. Estão ali, ela e seu feto, imperceptíveis. Fala timidamente. Seu olhar é morno. Não esboça um sorriso.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Estampas

A garota do vestido estampado sentava sempre no primeiro banco pertinho do motorista. Gostava de espelhos e sentava na frente para ficar se olhando no retrovisor. O motorista já era seu amigo. Trocavam olhares pelo retrovisor e conversavam boa parte do caminho. A garota do vestido estampado usava uma estampa diferente para cada ocasião. Em dias mais quentes, estampas de cores vibrantes, em dias frios, estampas miúdas, geralmente de flores. Estes eram meus favoritos. Seus cabelos longos e volumosos marcavam ainda mais aquelas estamparias. Nunca a via com outro tipo de roupa. Várias mulheres curculavam naquele ônibus, mas ela era a única que sempre usava vestidos, curtos, longos, médios, mas sempre estampados.Tinha inveja daquele motorista. Queria poder ser visto por ela. Descia do ônibus antes do meu ponto e eu a acompanhava pela janela até que sumisse do alcance de meus olhos. Era assim de segunda a sexta. Houve um tempo em que passei a sentir sua falta nos fins de semana. No domingo à noite já contava os segundos para poder vê-la no dia seguinte. Não sei explicar ao certo que tipo de sentimento me movia, mas comecei a desconfiar de que era paixão, mas uma paixão insegura, frágil, estranha. Assim que eu entrava no ônibus meus olhos se voltavam em sua direção e não se desviavam mais. Não sei que tipo de magia emanava daquela garota do vestido estampado. Chegava a sonhar com seus vestidos. O banco em que ela sentava geralmente era ocupado por algum velhinho. Era incrível como aquele lugar sempre estava ocupado, mas na primeira oportunidade que o encontrei vazio, sentei ao seu lado. Não trocamos uma palavra, sequer um olhar. Fiquei estático observando sua conversa com o motorista. Parecia uma estátua. Tinha medo de encostar nela e em seu vestido estampado. Quando chegou o seu ponto, desceu e eu continuei inerte, nem consegui acompanhá-la pela janela.

Alguns dias se passaram até que eu conseguisse mais uma vez sentar-me ao lado dela, mas essa vez foi decisiva. O motorista estava de férias e era outro que nos conduzia. Como ela não o conhecia, tive oportunidade de puxar conversa. Minha boca parecia ter o dobro de dentes quando lhe perguntei as horas. Os lábios estavam tão secos que tive a sensação de que partiriam. Não tive ideia mais criativa para iniciar uma conversa. Ela, pela primeira vez, olhou para mim. Nunca tinha reparado bem em seus olhos, eram grandes e expressivos e pareciam acumular todas as cores de seus vestidos. Respondeu furtivamente e virou-se para o lado. Então, recorri à segunda estratégia furada de puxar assunto e comentei sobre o tempo e o trânsito, que por sinal estava o caos de sempre. Ela apenas esboçou um sorriso e nada comentou. Minhas estratégias de aproximação já haviam esgotado, até que observei que carregava em seu colo um livro de Agatha Christie. Perfeito. Eu tinha toda a obra da rainha do crime. Comentei sobre o livro e perguntei se já tinha lido outros. Ela, um pouco incomodada com a pergunta invasiva, respondeu que era o primeiro que lia. Não sei se queria cortar o assunto ou se falava a verdade, mas acabou me dando motivos para prolongar a conversa. Como não foi muito receptiva, resolvi me calar. Quando desceu, a observei ao longe como de costume sumir no caminho.

Foi assim que conheci meu marido, em um ônibus que pegava todos os dias para o trabalho. Usava sempre vestidos e com muitas estampas. Tinha feito promessa para Santo Antônio. Sentou do meu lado um dia, conversou umas bobagens. Perguntou sobre um livro que estava lendo e daí não parou mais. Os lábios tremiam quando falou comigo pela primeira vez. Achei bonitinho, mas não dei muita conversa. Mais umas viagens juntos, algumas resenhas sobre os livros de Agatha Christie e o namoro começou. Casei com um vestido estampado para não contrariar o santo.

(Imagem: Flickr)

domingo, 28 de junho de 2009

Observações

Quando criança, gostava de observar os outros, escrevia tudo que seu cachorro fazia. Anotava as conversas das amigas da mãe quando lhe faziam visitas. Gostava mesmo de observar tudo. Falava pouco. Escrevia muito. Na adolescência, deu-se com a mania de contar histórias, umas verdadeiras, outras inventadas. Cresceu. Adulta, começou a falar e escrever na mesma proporção. Gostava de minúcias, de detalhes, mas já não tinha a prática de observar os outros para escrever. O cachorro há muito tempo não existia. Não morava mais com a mãe para observar as visitas e não tinha muito tempo para contar histórias, inventadas ou não. Nessa fase, gostava mesmo era de bater papo e escrever sobre o que acontecia no mundo. Na velhice, voltou aos costumes de criança, falava menos e escrevia mais, observava os filhos e netos e arranjou um cachorro. Escrevia tudo em caderninhos, que trancava em uma gaveta. Guardava tudo como um segredo. Um pouco mais velha, transformou seus escritos em uma fogueirinha de papel. A partir de então, decidiu guardar tudo em sua mente. Ali, ninguém poderia ter acesso.

Disfarces

A cada dia usa uma máscara e pensa que consegue ser vários, mas é apenas um. Descobri quem é, mas optei pelo silêncio, porque me instiga ver os seus disfarces. Representa bem os seus inúmeros papéis. Quer ser forte, mas a fragilidade salta aos olhos. Uma de suas máscaras é a que melhor se identifica, porque muda de sexo e pode se esconder melhor dos intrusos que tentam ler sua alma. Cada máscara que usa lhe permite oscilar entre o bem e o mal. É sua proteção contra o mundo.

(Imagem: Google)

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Invasão

Abre a porta de casa. Entra, limpa os pés no tapete. Caminha para a cozinha e encontra uma surpresa. Um bilhete colado na geladeira, que diz: Estive aqui. Ligo mais tarde.

Não faz ideia de quem poderia ter deixado aquele bilhete. E ninguém tem a chave daquela porta. Ao redor está tudo aparentemente em ordem.

Segue para seu quarto e encontra mais um vestígio. A cama desfeita, um cheiro no ar. Aroma agradável que a faz recordar os tempos de criança.

No travesseiro, encontra uma caixa colorida. Dentro dela, encontra mais um bilhete. Você ainda não sabe quem sou, mas entenderá quando eu ligar mais tarde. Guarde esta caixa, pois ela poderá ser útil.

Um medo a arrebata. Corre para o banheiro, despe-se e senta-se no chão. Alguém havia entrado em sua casa, alguém conhecia os seus segredos. Fica ali parada por um tempo, encolhida em si mesma.

O telefone toca. É ele. Ou ela. Com o coração aos pulos, sai do banheiro e atende a chamada. Hesita por uns instantes, mas consegue ouvir a voz do outro lado da linha. Você já sabe quem eu sou? Com a voz quase inaudível, responde: Agora eu sei. Acho que sempre soube.

A campainha toca. Desliga o telefone. Não abre a porta. Poderia ser mais um intruso. A campainha insiste. Veste a roupa rapidamente e decide ver quem é. É o zelador do prédio que traz uma carta. Alguém tinha deixado na soleira da porta.

Não abre. Não tem remetente. Mas ela sabe quem é. Segue para o quarto. Sente-se vigiada. Vê a caixa aberta em cima da cama. Guarda ali a carta.

Volta ao banheiro, toma banho. Lava os cabelos demoradamente. Não pensa em nada, apenas ouve o barulho da água caindo no chão.

domingo, 31 de maio de 2009

Passe adiante

O dia amanheceu cinzento e prenunciava fortes tormentas. Era um dia daqueles em que tudo que menos se quer é deixar o conforto da cama quente e da segurança do lar. Mas a vida lhe chamava lá fora e Sofia tinha que cumprir sua jornada diária. Assim como o cinza do céu estava seu começo de dia. Ao sair da garagem de seu prédio, apressada como de costume, encostou o carro no portão. Nublou-se, mas seguiu. Estacionou o carro próximo ao trabalho e percebeu que havia esquecido seu guarda-chuva. Foi então que surgiu um desconhecido que lhe ofereceu carona no seu guarda-chuva azul. Acostumada com a violência da cidade grande, Sofia ficou surpresa com a gentileza daquele homem e recusou seu auxílio, afinal, poderia ser mais um golpe de um bandido que a assaltaria mais adiante. Mas, a chuva estava tão forte que se imbuiu de coragem e aceitou a gentileza. Caminhou com aquele desconhecido até chegar ao trabalho, durante uns três minutos. Sentiu remorso por ter duvidado dele. Um remorso tão intenso que a fez encolher-se em si mesma, mas no fundo estava feliz por sentir calor humano naquele dia tão acinzentado. Despediu-se dele com um Obrigada. O senhor foi muito gentil. A resposta que obteve, ficou guardada em sua memória: Não há de quê. Passe adiante. Dias cinzentos podem se tornar azuis. Você que está lendo esta historieta, passe adiante. Gentilezas sempre são bem-vindas, principalmente quando não são esperadas.

Ausência


Saia de casa antes de clarear o dia. Dirigia cerca de duas horas até chegar ao trabalho. Era o primeiro a chegar e o último a sair. Passava o dia inteiro em frente ao computador, cercado de planilhas e e-mails. Sempre gentil com todos, inclusive com aqueles a quem jamais convidaria para ir a sua casa. Ossos do ofício. Passava o dia inteiro ao lado de vários colegas e pouco sabia de suas vidas. Tampouco ele sabia da vida deles. Estavam quites. Muitas vezes, laconicamente, dizia apenas um bom dia e nem sempre encontrava resposta. Em um inverno, afastou-se do trabalho porque seu pai havia falecido. Ao retornar, nenhum colega confortou-lhe pela perda. Alguns nem sabiam o que havia ocorrido. Encontrou em sua mesa uma pilha de envelopes que o levariam à produção de novas planilhas. Certo dia, durante o expediente, sofreu uma parada cardíaca. Sua cabeça pendeu sobre a mesa na qual trabalhava. Seus colegas só notaram sua ausência três dias depois, quando a natureza começou a sinalizar que aquele corpo não pertencia mais a esta vida.